10 de outubro de 2017

QUANTO MAIS VIAS MELHOR!!!

Via Babilina no Paredão das Lágrimas


Sobre abrir vias, considero um dos "jogos" mais bacanas do nosso esporte. Imaginar uma nova linha na parede, visualizar, planejar e por fim tatear cada saliência, buscando o caminho mais natural onde antes ninguém havia passado é uma grande experiência. Junte isso ao fato de poder contribuir com o esporte com uma nova opção de escalada, deixando um legado para que a evolução possa acontecer é realmente muito interessante. 

Nos últimos tempos, aproveitando a boa temporada a ilha de São Chico foi destino certo para a abertura de novas vias e boulders. 


Abaixo um apanhado geral das novas conquistas!




PÃO DE AÇÚCAR - VIA A FERRO E FURO  (6. 7c/8a E2)

Uma via que surpreendeu, primeiro pela qualidade da linha, suas movimentações variadas e verticalidade e em segundo por manter uma graduação "sustenida" em toda sua extensão. Tem aproximadamente 100 metros divididos em 3 enfiadas de 7.o grau (sugestão).

Quem estava de olho nessa linha era Felippe Karvat, trocamos uma rápida ideia e topei de imediato, em 4 investidas finalizamos a via, limpamos e encadenamos. 


A linha número 2 é a Ferro e Furo, entre as vias Desbravadores (1) e Dá ou Desce (2)


Equipamentos adicionais: Camalot .5 ao 3 ou material similar.
Rapel: Ideal com corda de 70m. Com corda de 60 m, da última parada (P3) melhor rapelar para a P3 da Da ou Desce, depois voltar à P2 da via e seguir ao chão.  Outra boa opção é levar os tênis e descer pela trilha (sentido Rocio) e contornar a parede pelo lado sul (10 minutos).

Croqui via A Ferro e Furo


PÃO DE AÇÚCAR - VIA ESCOLHA ERRADA (8a A2)

Aproveitando a onda e a parceria de Felippe Karvat, tinha vontade de tocar pra frente um antigo projeto na pequena parede voltada pra nordeste, onde ainda não tinha vias.

Esse setor é no mínimo interessante, parede vertical lisa, alguns sistemas de fendas e poucas agarras. 


Chegando no cume o Pão de Açúcar - São Chico/SC

O projeto em questão o qual chamamos de Escolha Errada, segue pelo óbvio sistema de fenda que atravessa a parede principal.

A via tem 30 metros e ainda não conseguimos liberar ela inteira, por enquanto até onde foi encadenada deu 8a, a parte alta ainda falta liberar. 

É uma boa opção pra fazer força ou treinar/aprender a escalar em artificial móvel, grau sugerido A2. Levar camalots .3 ao 4 (repetir as médias), aliens, clifs diversos e nuts.



PÃO DE AÇÚCAR - VIA BELLA LUNA (6. 7c/8a E2)


Com certeza mais uma excelente escalada. As duas primeiras enfiadas foram abertas em 2012 e eram já bem frequentadas. 


No começo da temporada foi terminada por Eduardo Sorriso e equipe, onde foi acrescentada mais uma enfiada de 30 metros até o final da parede, o grau ainda por confirmar deve ser algo entre 7c ou 8a. Tive o prazer de poder contribuir com sugestões e dar um "pega" pra provar o final. Na sequencia junto com Edu Maia encadenei emendando as duas primeiras enfiadas e fritando a cabeça no lance mais exposto da terceira, vale demais entrar nessa via! 




Reginaldo na via Vó Laudi


PAREDÃO DAS LÁGRIMAS


Um setor cheio de possibilidades que está sendo bem aproveitado, a cada temporada surgem boas escaladas. 

As novas vias são:  Lágrimas ao Sol (7b) com um lance final ainda por resolver e Roberta Nunes 10 anos (8a), uma bela linha negativa com boas agarras no começo e final, com lances mais técnicos e pouco óbvios no meio. Ambas as vias acabam na mesma parada e tem aproximadamente 25 metros. 

Foram abertas por João L. Pinto e Igor Jung. Essas duas vias estão localizadas na parte extrema esquerda do setor junto da via No Woman No Cry, que também recebeu uma extensão e passou de 5. para 7b. 
Esse setor ainda tem muitas possibilidades de vias esportivas, tanto fixas como móveis.


Via Contraponto 8b
O mesmo setor também oferece boas opções de boulders no meio da floresta e também foi foco de boas investidas nessa temporada.
Destaque para bloco do Ônibus que está desafiando a todos devido a sua negatividade e poucas agarras.


Sorriso tentando pegar o Ônibus

CAMPO ESCOLA TIRIÚ

Devido as excelentes possibilidades e pensando nos escaladores iniciantes, em companhia de Reginaldo Carvalho abrimos um novo Campo Escola na região, localizado no setor Tiriú.

O lugar já é um velho conhecido por causa de seus incríveis e incontáveis boulders a beira mar.


Campo Escola Tiriú

Restauramos e melhoramos algumas vias antigas, mantendo o padrão original da conquista e abrimos novas vias para guiar com proteções fixas. Nos apoiaram nesse processo dando dicas e provando as vias logo após serem abertas: IzaBela P. Cardoso, Leo Schmitz e Thais Ávila.


Sabrine Ceccato na via Freefenda

Para inaugurar e apresentar o setor, organizamos junto ao Centro de Escalada Jurapê um belo encontro de escalada. 


Felipe Shokida na via Minguante
Jurapê Escalada

Lucas na Billie Jean
Amanda lobato em sua primeira guiada na via Billie Jean


PÃO DE AÇÚCAR - RISO DO CAVALO (4. V E2)

Essa foi uma via que valeu a pena ter sido aberta. 

Conquistamos ela dentro do programa do curso de Abertura de Vias, onde a equipe de alunos: Dinnfer Reatto, Robson Georg e Samuel Mezzomo, pode aprender e por em prática o conteúdo adquirido.


Equipe Riso do Cavalo

O programa foi composto de uma aula teórica, onde foi apresentado os equipamentos a serem utilizados e uma discussão sobre Conduta Ética, amparado pela Declaração do Tirol entre outros textos e documentos.

Uma aula prática no setor Tiriú para aprender a utilizar os equipamentos específicos, técnicas de progressão, instalação de proteções fixas, entre outras. Nesse dia foram abertos 3 novas vias para fazer em top rope, Freefenda IV, Maremoto V+ e Bob Rope IV+ e mais uma via para guiar, a Tubérculo V+.


Robson equipando o Maremoto (V sup).


Dinnfer no aprendizado das técnicas equipando a via Tubérculo (V sup)

No terceiro e quarto dia partimos para o Pão de Açúcar e abrimos vindo de baixo e 100% em livre a via Riso do Cavalo, que segue uma boa linha de agarras, em uma parede levemente positiva com algumas barrigas mais verticais e um pequeno sistema de fenda pra fechar a via com chave de ouro.

Samuel fixando uma proteção


Dinnfer conquistando mais uma passada

Da minha parte, como instrutor, fiquei super feliz em ter atingido o objetivo proposto, além de deixarmos mais uma boa contribuição de vias à todos os frequentadores desses setores. 

Utilizamos em todas as proteções fixas instaladas nessa e nas outras vias acima citadas chapeletas inox da Bonier Equipamentos. 


Croqui Riso do Cavalo

Para mais informações das escaladas da região vejam o Guia de Escaladas em Rocha de São Francisco do Sul segunda edição 2016. 

5 de maio de 2017

Mulheres na Montanha


TRAVESSIA ARAÇATUBA X MONTE CRISTA
PROVAVELMENTE A PRIMEIRA REALIZADA SÓ POR MULHERES

Já havia algum tempo que cada uma de nós tinha vontade de realizar esta travessia, a mais longa aqui da região sudeste do Paraná - nordeste de Santa Catarina; havia também a vontade de realizar uma travessia na Serra do Quiriri só com mulheres. A partir daí surgiu à ideia de reunir um grupo de montanhistas, com experiência e preparadas para encarar o desafio!

DADOS GERAIS

Período de realização: 29 de abril a 01 de maio de 2017
Percurso total: 60,7 km
Participantes da Travessia:
Cecilia Suarez (Córdoba/AR)
Greissy Caminski (Curitiba/PR)
Idce Sejas (Curitiba/PR)
Juliana Hoy (Curitiba/PR)
Lucimara Bertioti (Curitiba/PR)
Marina Sutilli (Joinville/SC)
Priscila Guimarães (Paranaguá/PR)
Yara de Mello (Joinville/SC)

Travessia Araçatuba - Monte Crista



BREVE RELATO


14 de fevereiro de 2017

Campo Escola - Anhangava

Anhangava

O Anhangava é uma montanha de 1.430 metros de altitude localizada na Serra do Mar paranaense. Um dos grandes destinos para os praticantes da escalada em rocha, é considerada um excelente "Campo Escola", haja visto a grande quantidade de vias  de baixa e média graduação em diversas técnicas e estilos, inclusive foi nessas paredes onde o termo campo escola foi cunhado, nos idos da década de 40.

Via Quarto Mundo (4. Vsup) - Setor campo das panelas.
Quem escala nessas paredes pode literalmente sentir na pele a abrasividade do granito e sua excelente textura. As vias exigem do escalador uma técnica apurada, principalmente a partir do 6. grau, onde a inclinação aumenta e as agarras diminuem. Saber usar bem os pés e aproveitar ao máximo a aderência da rocha é fundamental. Sem dúvida essa montanha favorece o aperfeiçoamento da técnica a um alto nível, onde de nada adianta ser forte, se não souber se posicionar adequadamente, para então "levitar" no granito. 



7 de dezembro de 2016

Sobre os últimos tempos


Os últimos tempos foram incríveis, muita coisa rolou por aqui, vários projetos foram concluídos e não deu tempo/motivação de postar aqui no blog, sendo assim, pra não passar em branco segue um apanhado de alguns acontecimentos dos últimos meses que merecem serem destacados.



NOVO ESPAÇO DE ESCALADA

O projeto mais gratificante desse ano e que tomou muito do meu tempo e esforço, foi sem dúvida a construção de um novo espaço de escalada aqui na cidade de Joinville, o Centro de Escalada Jurapê.

Centro de Escalada Jurapê

O principal objetivo do espaço é proporcionar  um lugar de excelência para a prática e o aprendizado do esporte. O que trará uma forte evolução, formando e treinando novos adeptos, tanto para competições como para escalada e montanhismo. 
A parceria entre o Centro de Escalada e a Salamandra que atua a 15 anos fortalecerá o desenvolvimento do esporte. Localizado na área central da cidade, anexo a loja Jurapê Aventura, esse novo espaço sem dúvida vai revolucionar a escalada na região. 

Centro de Escalada Jurapê - Rua Fernando de Noronha, 204 Joinville/SC

3 de julho de 2016

Catálogo de Vias - SERRA GERAL/SC



Texto por Fernando Urnau

O final do ano de 2014 terminava com um saldo positivo no número de vias abertas em um novo setor e também em setores consolidados da região. Quando retornei de meu período de férias do ano novo junto com o Zig iniciamos uma contagem para somar os resultados, do papel foi para o computador e a empolgação gerou um documento que em três semanas criou forma e características para a edição de um catálogo. 

9 de maio de 2016

ABERTURA Mirante 360



Nesse final de semana foi reaberto um dos principais setores de escalada esportiva do estado, o Mirante Eco 360.
Esse setor representou no final dos anos 90 uma revolução para o esporte em Santa Catarina, foram nessas paredes que se consolidou vias difíceis e técnicas, que ajudaram na evolução de uma geração e seguem sendo ainda um excelente desafio.




19 de abril de 2016

Canaleta Joinville

Parece que a cidade de Pancas/ES virou mesmo destino certo dos montanhistas de Joinville, são vários os escaladores que já se desafiaram naquelas montanhas de rocha nua.
A última investida resultou em uma nova via na da Pedra do Camelo, batizada de Canaleta Joinville.

Confiram o relato segundo João Luís Pinto um dos conquistadores:

Conquistando em Pancas (ES)

29 de março de 2016

Na ponta da corda


Urbano na segunda enfiada (7a)

Recentemente foi finalizada uma nova via no Morro da Cruz em São Chico, trata-se da via Pumbélha, que foi aberta por Alecsandro Urbano e Felippe Karvat.

Aproveitando os bons ventos que chegaram junto com a mudança da estação, aproveitei pra conhecer a nova via, pra mim sempre uma grande satisfação poder subir algo novo no morro, ainda mais aberta por amigos que tive o prazer de ensinar através dos meus cursos.

1. Vó Laudi  2. PUMBÉLHA  3. Penélope

São duas enfiadas bem divertidas, a primeira mais curta com uma passada de 7a e a segunda mais longa, com 35 metros, também 7a só que mais constante e vertical. A via ainda segue pra uma terceira enfiada, porém como é um trecho bem liso, optou-se por finalizar a via por ali mesmo, pelo menos temporariamente para melhor avaliação. Pra descer com uma corda de 60m melhor ir pela via Penélope, que localiza-se a direita. A graduação sugerida é: 6. VIIa E2 , assim que a via receber novas repetições poderá ser ajustado.



Como acompanhei todo o processo dessa conquista, além do prazer em fazer a primeira repetição, posso descrever e compartilhar alguns pontos que julgo importantes.
A equipe buscou informações, sugestões e capacitação, escolheram a linha e aplicaram o estilo de aventura predominante no morro. Vieram de baixo na ponta da corda descobrindo cada passada, algumas em livre, outras em artificial. Aproveitaram as fendas e buracos, característicos dessa parede, para proteger os lances com equipamentos móveis. Deixaram uma boa distância entre as outras vias existentes para não descaracteriza-las. 

Tiveram também momentos de dúvidas, pra decidir a direção a seguir, procurando a linha natural ou qual técnica usar, seguir em livre ou subir nos clifs, furar ou não, onde bater a proteção... Dúvidas tipicas de abertura de vias, que surgem somente no momento da ação, do fazer acontecer, que nos permite adquirir experiencia, para uma das mais interessantes facetas do esporte, subir por itinerários inéditos.

Como resultado, posso afirmar que foi uma ascensão muito bem feita, sem dúvida mais uma excelente via pra testar e aprimorar nossas qualidades como escaladores.


Finalzinho da primeira enfiada.

Mais sobre as vias do Morro da Cruz clique aqui.
Em breve mais informações na segunda edição do Guia de Escaladas em Rocha de São Francisco do Sul.



25 de outubro de 2015

NOVOS BLOCOS - Morro do Finder

Rafael Alchieri provando o Gravidade Zero V4 - Setor Floresta

Localizado praticamente no centro da cidade de Joinville o Parque Municipal Morro do Finder sempre foi um setor bastante frequentado, principalmente a Pedra do Veloso, que tem várias vias esportivas e o setor da Gruta, que conta com vários boulders. Ambos os setores desenvolvidos no final dos anos 90.

Recentemente comentei com a galera, que em uma ocasião explorando a floresta do Parque eu havia encontrado uns blocos interessantes, mas que na época (começo dos anos 2000) não me motivei em limpar e abrir os lances.


Boulder Unha de Gato V2 - Setor Floresta

Com uma "nova geração" de escaladores motivados, fomos a procura desse setor e pra alegria geral os blocos eram MUITO melhores do que se esperava.
Rapidamente começaram os trabalhos de limpeza e abertura dos boulders. O mato que tomava conta dos blocos foi retirado, as bases foram arrumadas, bromélias e orquídeas foram retiradas e colocadas nas proximidades. Os espinhos e trepadeiras, comuns desse ambiente de mata secundária, foram retirados e deram um novo ânimo pra floresta crescer.


O setor foi denominado de Floresta e se localiza na encosta logo abaixo do setor principal. A rocha é a mesma encontrada em outros blocos, um quartizito de excelente qualidade e com muitas agarras. A maioria dos boulders são negativos e tetos, tornando a escalada bem específica e difícil. Foram abertos aproximadamente 8 lances  e há muita coisa boa e difícil ainda pra abrir. 

Edwil James no boulder Imaginésio V3

Os principais responsáveis pelo "trabalho" realizado nesse novo setor e as primeiras ascensões foram, Rafael Alchieri, Edwil James, Alecsandro Urbano, Guido Gelbcke, Christine Mender, Jader Rampinelli e Daniel Casas.

Para conferir o croqui completo dos novos boulders e dos setores "antigos" de um clique aqui. 
Para saber mais sobre o setor clique aqui.

IMPORTANTE

- Mantenha o ambiente como encontrou.
- Utilize os acessos já abertos.
- Para abertura de novos blocos e linhas utilize as técnicas de mínimo impacto, retirando a vegetação onde é estritamente necessário e realocando sempre que possível.
- Não cave agarras.
- Em caso de novas ascensões comunique a galera local para registrar as informações.

Todos são bem vindos à se divertir e abrir novos lances!!!








8 de setembro de 2015

Pura Rocha

Escalar essas montanhas é buscar mais que um cume, é uma oportunidade de ir ao encontro do equilíbrio físico e mental, conectar ao momento presente e por fim viver nossos sonhos.


Pico Maior ao centro, picos Menor e Médio a esquerda e Capacete a direita

Um dos principais centros de escalada em grandes paredes do Brasil é com certeza o conjunto de montanhas do Parque Estadual dos Três Picos, em Nova Friburgo/RJ, ou simplesmente Salinas. Foram nessas paredes, onde escaladores como Tartari, Portela,  Hartmann, entre outros, forjaram um estilo de escalada arrojada e moderna, buscando sempre uma escalada limpa, minimizando os pontos de apoio, empurrando o limite vigente e dando novas referências para o montanhismo brasileiro.
Subir por essas paredes é "beber da fonte" da escalada tradicional brasileira, montanhas de rocha nua, metros e metros de escalada, técnicas variadas, cumes onde não se chega andando.


Pico Maior

Os Picos Maior, Menor e Médio junto com Capacete e a  Caixa de Fósforos, são as montanhas mais frequentadas da região e onde se concentram o maior número de vias. 
Nas palavras de Portela "Tem de tudo. Nem pra todos. Tem bloco e falésia, parede pequena e grande. Fácil, difícil e imponente. De rocha pura ou com muita vida e sempre com muita aventura." 

Vias com 10 ou mais cordadas são comuns, a rocha predominante é um granito/gnaisse de excelente textura, sólido e aderente. Uma das principais características do local é a distância entre as proteções, lances longos sem ver o próximo grampo são comuns. A grande maioria  das vias possui o grau de exposição E3 ou maior, ou seja, escaladas com certo comprometimento, onde uma queda pode gerar um acidente. Porém devido a qualidade da rocha esse "detalhe" pode até passar despercebido depois que se acostuma ao estilo. 

Um "mar de granito" com suas infinitas possibilidades de subida.

Filipe Rochi na parte alta da via Fata Morgana no Capacete

Essa foi uma viagem de última hora,  não estava nos meus planos pra temporada, porém era um destino que sempre tive vontade de voltar, para aprender e me testar.  

Em outra ocasião já havia subido o Pico Maior pelas vias Leste e Decadence, ainda lembro do contraste que foram essas duas escaladas - aventura plena e puro desfrute - tínhamos pouca informação e nunca escalado nessas montanhas. A primeira foi a Leste, entramos apreensivos e focados, já de cara sentimos na pele o estilo arrojado dessas paredes, choveu nas últimas cordadas e mesmo assim seguimos adiante, fizemos cume e sem perder tempo achamos os rapeis com visibilidade mínima, com forte chuva chegamos de dia e felizes ao acampamento. 

Dias de descanso e foi a vez da Decadence, na mesma face e praticamente o mesmo tamanho da Leste, 700 metros de "pura roca". A escalada foi puro desfrute em um dia de sol e sem vento. Já habituados ao estilo, fomos rápidos, subimos parte da via em simultâneo. Em 5 horas já estávamos sobre as pedras do cume aproveitando o sol, sentindo o vento e tentando entender, junto ao turbilhão de emoções que invadem nossas mentes,  as motivações que nos levam a momentos tão plenos.





A vida segue e me leva mais uma vez onde quero estar: aos pés da parede mirando a linha da próxima aventura.  A "bola da vez" seria a via Arco da Velha (D4 6. VIIa E3). Sinto um irresistível magnetismo em testar minhas qualidades como montanhista em uma parede tão imponente e por uma via que quebrou paradigmas em seu tempo! 

Como seria uma viagem de poucos dias pra tanta rocha, tracei um cronograma objetivo em minha mente: duas vias pra aquecer no Capacete, um dia de descanso e então a Arco da Velha.


Face norte do Capacete e Pico Maior a esquerda.
Cume do Capacete e Pico Maior ao por do sol 

Com Reginaldo e Urbano subi a via El Kabong (D3 5. VI E2 450m), uma boa escalada que fica mais interessante após as três primeiras cordadas, onde a parede fica mais vertical. Boa para entrar no ritmo e se adaptar a rocha sem se expor demais. Depois foi a vez dos 400 metros da Sólidas Ilusões (D3 5° VI+E3), uma clássica e super bem recomendada. Uma cordada melhor que a outra, técnicas variadas mesclando proteções fixas e móveis. É boa para "entrar no clima" e começar a se acostumar com lances menos protegidos.


Urbano nas últimas cordadas da via Pança do Mamute onde a Kabong se junta.
Caon no final da Sólidas, lá embaixo no descampado a área de camping 


Entrando do diedro da 3. cordada da via Sólidas Ilusões

Um dia de descanso pelo vale pra ficar de preguiça, aproveitar o sol e se preparar pra escalada. O corpo relaxa, mas a mente cada vez mais ansiosa com o passar das horas. Ronchi e Regi estão na Leste, vamos a um mirante e acompanhamos os últimos metros da escalada, pequenos pontos perdidos no granito. Em pouco tempo pisaram no cume e pudemos escutar seus gritos ao longe e sentir a vibração positiva. Nessa hora do dia o vento já tinha mudado de direção e soprava com força,  trazendo muitas nuvens, o tempo parecia virar. 

Acordamos as 4 da manhã, noite estrelada, um rápido café e sob as luzes de nossas lanternas frontais, seguimos a passos decididos nosso caminho. Chegamos na base clareando o dia e quando o sol surgiu no horizonte já estávamos avançando na primeira parte da via, mais fácil e positiva.

Minutos antes do sol despontar no horizonte

Tocando na parede junto com os primeiros raios de sol.

O tempo ainda parecia suspeito no começo da manhã, mas com o avançar do dia e a medida que ganhávamos altura foi se estabilizando e seguiu perfeito, com temperatura agradável e pouco vento. 


Rafael Caon iniciando a 4. cordada.

Na segunda parte da via, a parede ganha verticalidade e mostra todo seu encanto, boas agarras e lances longos com poucas possibilidades de colocações móveis. Frito minha cabeça, mantenho o foco e me divirto na busca pelo melhor caminho. Como as proteções são distantes e as possibilidades de caminhos muitas, achar a sequência de agarras certas que me levarão a um "porto seguro" é a parte mais difícil e também a mais interessante. Ir passo a passo, com cautela pra não entrar em "xeque mate" impossibilitando a subida ou a descida, faz com que meus sentidos mantenham-se atentos. Sigo em uma mistura de transe e êxtase, me equilibrando na vertical, meus pensamentos voltados exclusivamente para o momento presente, focado em resolver cada passada com maestria. O tempo parece parar.


Sétima cordada
Urbano liderando a 8. cordada.

Nosso ritmo é bom e logo chegamos em uma cordada chave, que consiste em um teto com agarras. Um lance de VI, mas o número é apenas um parâmetro e não representa a real dificuldade em fazer a passada. Lá no alto da parede, protegido com pequenas peças, sentindo o vazio, tudo fica mais complexo. Demoro um tanto pra passar o lance, vou e volto, negociando com as agarras, enfim decido e com atitude escalo sem medo. Mais alguns metros e melhor protegido sigo até a corda praticamente acabar e monto a parada. 


10. cordada da via Arco da Velha

Desse ponto em diante sabemos que estamos com o jogo praticamente ganho, faltam apenas 4 cordadas e então baixamos o ritmo, um tanto pelo cansaço e um pouco para desfrutar dessa bela escalada. Mas a montanha não perde verticalidade e precisamos seguir apertando com força e pisando certo nas agarras. Na parte final juntamos na Decadence e seguimos por ela até o cume em tempo de apreciar o por do sol. 



Cume Pico Maior

Tão raro esses momentos de cume, sensações que não podem ser racionalizadas, muito menos descritas, devem ser experimentadas

Não nos demoramos muito no cume e logo partimos em busca da descida. Saio abrindo os rapeis, e um a um vamos perdendo altura e nos aproximando do colo com o Capacete. Já é noite escura e no último rapel me perco e acabado entrando em uma grota, ao menos estava no chão. Meus parceiros, sem muita escolha me seguem, traço uma linha reta e rasgamos o mato até achar a trilha que nos leva pra junto do calor do fogão a lenha.

"...no meio da pedra tinha um caminho..." Via Arco da Velha

Os dias vão passando rápido, amigos chegando e outros indo, cada qual com seus objetivos. O tempo segue firme e após algum descanso, trivialidades, ócios e devaneios a motivação volta. Ainda subimos as vias Fata Morgana e Roberta Groba no Capacete, pra encerrar essa rica temporada! 
Aos amigos com quem pude compartilhar esses dias na montanha, muito obrigado!


Cume do Capacete


Pra finalizar um pequeno clip no melhor Jamaica Style!!!




Apoio: Jurapê Equipamentos para Aventura, Resseg Mountain Wear, Hard Adventure e Salamandra Escola de Montanha.